22 janeiro 2026

Crônicas I

 Uma das minhas músicas favoritas, que aprendi a gostar por influência do meu pai, diz o seguinte:

"Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver"

                -Tom Jobim (Eu não existo sem você)

É incrível como a beleza da poesia, do sentimento, da intensidade, parecem vir dos corações mais quebrantados. Aos poucos o romance foi sendo substituído por prazeres cada vez mais momentâneos. A prioridade do coração deu lugar à vontade do corpo. A doçura, o zelo, a conquista, o sonhar acordado... Onde estão todas essas coisas? Só na mente e no peito dos românticos, hoje apelidados pejorativamente de emocionados.

Somos desencorajados a amar. E é algo que sinceramente me questiono como pessoa sensível que sou: por quê?! Simplesmente não faz sentido. Não faz sentido que uma pessoa não queira ser amada. Não faz sentido que ela não deseje no íntimo dela alguém para amar de todo coração. Não faz sentido. 

Quando paro para pensar nas possíveis razões para o esfriamento, o sofrimento é sempre o primeiro da lista. Porque na medida em que amar é ótimo, não ser amado é horrível. E é difícil para nós, românticos, lidar com todos os joguinhos e artimanhas que as pessoas desenvolveram e normalizaram para não sofrer. É difícil porque não construímos tantos muros à nossa volta. Gostamos de correr livres pelos campos do amor. Até nos darmos conta de que estamos correndo sozinhos e sendo taxados de bobos por todos que estão trancados em seus quartinhos da segurança.

É como se importar-se fosse errado. Ora, não queremos todos que se importem conosco? Não achamos bom quando sabemos que somos importantes para alguém? Então porque a dificuldade de fazer o mesmo?! A conta não fecha nunca! É o puro sumo da hipocrisia desejar que o outro me forneça aquilo não entrego. De um egoísmo sem tamanho. E como fica a nossa cabeça, nossa alma, que foi forjada no fogo dos sentimentos profundos? Nós temos que lidar com a dura realidade de sempre oferecer o melhor, em abundância, sem medo, sendo claros em nossas intenções, tendo o cuidado de proteger o coração do outro e fazendo-se presente, para que? Para ouvir que somos dramáticos, exagerados, grudentos, dependentes emocionais! Veja só! Conseguiram transformar em patologia o fato de demonstrar gostar de alguém.

Já dizia um sábio livro que "o coração de muitos esfriará". É chegado o tempo. E nós, românticos, somos a última resistência da humanidade.

LLOA.

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